Sobre ser (chamada de) louca


Chamar uma mulher de louca é uma estratégia covarde e perversa para nos calar. (Eu falo no plural porque nunca uma mulher é calada sozinha) Não podemos questionar algo que não concordamos, problematizar, reclamar do que nos fere, gritar se formos agredidas. Uma mulher que fala o que a sociedade não quer ouvir é autoritária. Uma mulher que questiona a lei machista é louca. Uma mulher que chora quando algo a atravessa é descontrolada. Uma mulher que grita quando se sente abusada é histérica. A mulher não pode sentir, não pode falar, não pode chorar, não pode escolher. Tem que estar sempre sorrindo de forma comedida, controlando-se quando é abusada. A mulher tem que aceitar, tem que ser uma dama.   

Se você é homem, quando você chama uma mulher de louca não está agredindo só a ela. Está ferindo a todas as mulheres que cercam a vida dela e a sua.  Sim, a sua. Você está chamando a sua mãe, a sua filha, a sua tia, a sua avó e toda a sua ancestralidade de louca.

Se você é mulher e chama outra mulher de louca, além de estar se tachando de louca, está agredindo a uma irmã. Está traindo a sororidade. Mas tudo bem, mana, a gente te acolhe mesmo assim. Talvez você ainda não saiba muito sobre isto, por falta de oportunidade ou de interesse, vai saber. Mas a gente está aqui pra te ajudar e pra te mostrar que de perto ninguém é normal mesmo. Que a normalidade é supervalorizada. E que se ser louca é lutar por nossos direitos, não aceitar comportamentos machistas, fazer um escândalo quando alguém tenta abusar da gente, então sim. Nós somos loucas, nós somos histéricas, nós somos doidas varridas.

Nós choramos juntas se algo nos atravessa. Porque sim. Porque chorar nos torna humanas, não fracas.

Nós gritamos diante de uma agressão, nós gritamos para nos defender, nós gritamos para pedir ajuda, nós gritamos para ajudar uma mana em perigo.

Nós expomos o abusador, o estuprador, o pedófilo. Deixamos bem claro que a culpa é de quem comete o crime, não da vítima. Porque sim, é crime! E nós não vamos mais nos calar. Quem tem que ter vergonha é quem comete o crime, não a vítima. E isto não é vitimização. Isto é lutar por uma sociedade justa.

Nós não temos mais vergonha de falar sobre o aborto. De lutar pelo direito da mulher de decidir sobre seu corpo, sobre sua vida.  Porque nós sentimos na pele o peso de uma gravidez, planejada ou não. Porque nós sabemos que no fim das contas a responsabilidade e as consequências vêm para a mulher. Não importa a escolha que seja feita.   

E se quiser continuar nos chamando de loucas, chame! Isto não nos intimida mais. Isto não nos impede de seguir na luta por um mundo igualitário. Fica à vontade.

Mais cedo ou mais tarde você vai entender que estas loucas estão mudando o mundo. E não há mais nada que você possa fazer para nos conter.

Nós estamos fazendo uma revolução. Nós somos cis e trans, lésbicas, bissexuais, pansexuais, assexuais, heterossexuais, negras, índias, amarelas, nós somos diversas e nós somos muitas.

Nós vamos continuar sendo loucas, histéricas, doidas varridas.


E não, nós não nos calamos mais. 


"Dizem que sou louca por pensar assim..."


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