Sobre o estupro
Eu queria poder abraçá-la nesse momento, consolar o choro
dela, ajudar a curar a dor que ela está sentindo no corpo e no coração.
Eu queria que ela soubesse que apesar de todo o sofrimento
ainda existe amor no mundo. E que há pessoas mandando esse amor para ela.
Eu queria tirar aqueles panos da cabeça dela e dizer: “Você
não precisa se esconder. A culpa não é sua. Você foi vítima de homens cruéis,
perversos, machistas. São eles que estão errados. Eles que precisam ter
vergonha, não você. ”
Eu queria segurar a mão dela e ajudá-la a passar por todo
esse tormento. Dividir um pouco o peso que ela está carregando.
Eu queria que ela não tivesse passado por isso. Eu queria
que nenhuma mulher e nenhuma garota tivesse passado por isso. Eu queria que
isso não acontecesse nunca mais.
Eu queria que a cada 11 minutos uma mulher se empoderasse,
não que fosse estuprada.
Eu queria não sentir a dor que sinto na alma a cada 11
minutos. Porque cada vez que uma mulher ou uma menina é estuprada, todas as
mulheres também são. A cada foto ou vídeo compartilhados, todas nós somos
expostas.
O estupro é uma ferida que não cicatriza, porque a cada 11
minutos é cutucada, sangra, dói. Não para de doer.
Eu queria que os homens sentissem também e dividissem o peso
da nossa dor. Talvez assim não compactuassem mais com o machismo e com a
cultura do estupro. Porque sim, de tão comum, o estupro tornou-se uma cultura.
E faz parte dessa cultura todo e qualquer comportamento, comentário, vídeo,
foto, piada, assobio, que sejam feitos a partir da ideia de que a mulher é um
objeto a ser possuído por um ou vários homens.
Nem tudo que eu quero, posso. Mas o meu amor àquela garota
que eu não conheço, mas que também é minha amiga, minha prima, minha namorada, minha irmã, meu
pedaço que chora a dor de um estupro, eu posso mandar. Porque só com muito amor
para curar tanta dor.

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