Sobre sofrer
Sofrer é bom. Bom como café, coca-cola, cigarro e sexo (não
obrigatoriamente nessa ordem). Também é necessário. Não
dá para passar superficialmente pela vida, há que sofrer pelo menos um pouco
para aprender a viver. E algumas pessoas se sentem tão à vontade nesse papel
que acabam se tornando viciadas.
Talvez por uma extrema cobrança dos próprios atos, ou por
uma necessidade de se vitimizar, pelos dois, ou, simplesmente, por gostar de
sentir aquela dorzinha quando ouve uma música e se identifica.
Sofrer faz bem. Nos dá humildade, nos faz rever os
conceitos, repensar os rumos da vida, nos deixa mais sensíveis às artes, à uma
boa musica. Seja ela tocada por aquele teclado velho que todo bom boteco tem, ou
no mais belo fado.
E há inúmeras formas de se prender nessa teia de sofrimento:
pode ser por um amor mal resolvido, por um trabalho ruim, uma decepção com
amigo, sonhos frustrados, tudo junto, nada disso, as possibilidades são
infinitas. E quanto mais o tempo vai passando, mais coisas vão somando, mais a
gente vai se afundando e quando vê, tá tão aprisionado naquela realidade que
perdeu boa parte da vida. E a gente se lamenta, chora, reclama, critica, sofre
mais e mais.
O fato é que gastar energia se culpando pelo próprio sofrimento
ou tentando achar um culpado pra ele, só nos faz mergulhar mais e mais na dor,
experiência própria. Aceitar que aquilo
não deu certo e seguir em frente, tentar de novo, seria a salvação. No mundo
ideal. Mas não, nós insistimos em levá-la para o resto da vida, fazer dela uma
cicatriz e sempre olhar pra ela “como um aprendizado”, “para nunca mais passar
por isso”, “para não sofrer nunca mais”. Vamos fazendo quem não tem nada a ver
com a história pagar e continuamos sofrendo. Porque não conseguimos nos desfazer daquela dor, não é fácil deixar esse porto. Apesar de machucar, é seguro, é acolhedor.
Feliz de quem conseguiu superar, se permitiu viver de novo,
quis correr o risco de novo. Mas hoje não é o dia de quem conseguiu. Hoje eu quero curtir meu vício preferido, hoje eu vou aproveitar a minha dor.
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