Sobre o preço
Ouvi dizer que tudo na vida tem um preço, resolvi testar.
Foi mais alto do que eu podia pagar. Assumi a dívida e tentei negociar.
Consegui dividir em suaves parcelas da minha juventude. Me deram muitas opções
de pagamento e uma regra: em cada
escolha que eu fizesse, um caminho diferente se abriria e as outras opções
seriam excluídas automaticamente. Aceitei, não tinha nada a perder. De cara
perdi boa parte do que sonhei.
Muitas vezes, enquanto lutava comigo pela
próxima escolha, pensei que poderia deixar a sorte escolher por mim. A pior de
todas as escolhas, posso garantir. Deixei pra trás muita coisa importante. Se
eu tivesse pelo menos o direito de refazer a minha jogada. Não dá. Não se muda
as regras no meio do jogo. Sofri por não saber o que fazer.Resolvi deixar de lado
o acaso e só ouvir o coração. Coração burro. Não entende nada da vida. Só
escolhe por impulso, pelo menos me deu alguns sorrisos. Mas me fez sofrer mais.
Então decidi só usar a razão. Como não havia pensado nisso antes? Antes eu não
havia pensado mesmo. A partir de agora, vou refletir bem as minhas opções antes
de tomar qualquer escolha. Nunca mais faço besteiras por impulso. Nunca mais
sofro por não pensar. Cada escolha era calculada como a equação mais complicada
que existia. Cada renúncia, uma dor, consolada por acreditar ter tomado o
caminho correto. Mas o pensamento do “e se?” não me abandonava. Era o coração
tentando dominar a minha razão. Ou era a razão entrando em colapso. Sofri
demais por pensar demais.Um dia surgiu a oportunidade: pague hoje a sua dívida
e siga seu caminho como preferir. Pensei
bem, resolvi pagar tudo de uma vez. Quem sabe a tal da liberdade não trouxesse
a tão sonhada felicidade?
Agora eu estava livre, pra que? Pra viver. E como
funciona isso? Você toma uma decisão e vê no que vai dar. Se der certo, passa
de nível, se não, não tem jeito. Tenta passar na próxima rodada. Nada mudou.
Sofri por não ter mais uma dívida. Pelo menos antes as difíceis escolhas tinham
um propósito. Foi quando vi a feliz oportunidade de me endividar de novo. Meu coração
pulou de alegria. Nunca tinha sentido aquilo antes. Estava excitada, ansiosa.
Quem via de fora dizia que era loucura, que aquilo era demais. Que eu
precisaria de umas cinco vidas para pagar por aquilo. Ainda assim tentei. Fui
aprovada na pesquisa de crédito. Pelo visto as escolhas não foram tão erradas
assim. E mais uma vez me via endividada. Mas feliz. Continuava sem saber como
jogar o tal jogo das escolhas. Pouco importava. Finalmente tinha algo que
realmente valesse a dúvida, algo que valesse a dor. Aprendi a escolher pelo
amor.
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