Sobre lutar
Estamos no dia 7 do golpe. Sinceramente, a cada nova notícia
sobre as governanças desse presidente-golpista-interino fico mais enjoada e
enojada. Até ontem também me sentia sem esperança. Mas uma frase ficava ecoando na
minha cabeça: “Esse mundo horrível está grávido de outro”. Foi o Galeano quem
disse isso, há alguns anos em um contexto diferente do nosso, mas nem tanto.
Ontem, 17 de maio, foi o dia internacional de combate à LGBTfobia.
Ontem também e não por acaso, tive a oportunidade de ir para o I Seminário de
Conversas Empoderadas e Despudoradas sobre Gênero, Sexualidade e Subjetividades.
Foi um dia intenso de muitas discussões e muito aprendizado. Mas de tudo, o que
mais me tocou foram os discursos de encorajamento apesar destes tempos difíceis
que estamos vivendo.
De cada história, ficou a mensagem de luta. Ficou a força
apesar de toda a discriminação, apesar de todas as adversidades. E ficou também
a esperança. Porque se os que vieram antes de nós venceram batalhas muito
piores, esta luta nós não vamos perder.
Os que querem acabar com o nosso direito de ser quem somos,
são seres privilegiados que nunca precisaram de muito esforço para chegar onde estão ou para conseguir o que querem (vide o golpe e quem o alimenta). Eles não vão aguentar a nossa
pressão, porque nós não temos medo de repressão. Nossa vontade de ser é maior
que qualquer medo. Nossa essência é mais autêntica que a ideologia vazia que eles
querem nos fazer engolir. Nossa necessidade de lutar não começou hoje, nem
ontem, nem há sete dias. E nem vai acabar amanhã. Dentro da nossa resistência
nós temos muitas questões, por isso nós não temos medo, porque esta é só mais
uma batalha.
Nossa luta é pela democracia, porque democracia também é
respeito à pluralidade da sociedade.
Nós não vamos desistir.
Eles querem destruir o nosso entusiasmo. Mas nosso
entusiasmo é genuíno, depende da nossa luta e não da crueldade deles.
Eles querem ganhar no grito, na força bruta. Acham que são
mais fortes porque têm mais músculos. Mas nós temos cérebros e corações. Nós
pensamos e sentimos, Nós
somos corajosxs, questionadorxs e valentxs.
Eles querem dividir o mundo entre eles e nós. Mas nós
acreditamos em um mundo plural, onde todxs, inclusive eles, façam parte em suas
diferenças. Que todxs tenham voz em suas particularidades.
Eles querem que a gente volte para o armário. Mas nós já
sentimos o gosto bom da liberdade de poder ser quem se é. Não queremos e não vamos
voltar, continuaremos a luta para que mais pessoas possam sair.
Eles querem que a gente acredite que tudo está perdido. Mas
nós sabemos que não está. Se há tanta reação é porque fizemos barulho
suficiente para incomodá-los. E nós somos o barulho.
Eles querem que a gente se cale e aceite a nova condição que
eles impuseram. Mas a gente sabe que essa condição não é justa, nós não vamos
nos calar.
Nós não vamos nos calar porque o nosso poder está no
diálogo.
Nós não vamos nos calar porque nosso poder está na educação.
Nós não vamos nos calar porque o nosso poder está na
cultura.
Nós não vamos nos calar porque o nosso poder está na nossa
pluralidade. E nós somos muitxs. E nós somos diversxs.
Nós não vamos nos calar porque o nosso grito é por amor à liberdade.
Nós não vamos nos calar porque, como disse Galeano, este
mundo horrível está grávido de um outro mundo. E quem o engravidou fomos nós.
Da nossa luta depende o seu nascimento. E nós não vamos parar de lutar.
O vídeo é de 2011, mas o discurso do mestre Galeano é atemporal.
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