Sobre a vergonha (que não é sua)
Imagine uma situação abusiva que
você sofreu ou testemunhou. Pode ser no trabalho, na família, na rua, no supermercado, em um bar, pode ser o seu relacionamento amoroso. Observe seus sentimentos. Sabe a vergonha que você está
sentindo? Essa mesmo, que está misturada com raiva e tristeza. Essa vergonha não
é sua. Essa vergonha é pela atitude de quem praticou o abuso. Portanto, não é
sua. Se ela não é sua, você não precisa ficar com ela. Você não precisa
alimentá-la com culpa. Porque se a vergonha não é sua, imagine a culpa. Esta
que não é mesmo.
Você é responsável pelas suas
escolhas, pelos lugares que você está, pelos relacionamentos que mantém. Isto é
seu. Mas quando alguém abusa de você, não é seu. O abuso é uma invasão. É como
um ladrão que rouba uma casa. Não há como culpar o dono da casa, não se deve
invadir a propriedade alheia. Não há como lhe culpar.
Mas se, por acaso, alguém lhe
culpar, saiba que este alguém está errado. Suas responsabilidades vão até onde
você pode controlar, escolher. E é aí que está a questão. A sua
responsabilidade está em escolher se mantém ou não a relação. E isto é tão complexo e pessoal que ninguém
pode lhe dizer o que fazer. Porque você tem seus motivos para se manter nessa
relação, pode ser o medo, pode ser o amor, pode ser a necessidade. E isto é
seu, cabe a você desconstruir, achar uma saída, pedir ajuda. Diante de todo o seu sofrimento,
não cabe a ninguém lhe julgar. Permita que se aproxime quem realmente puder
ajudar e permita-se ser ajudada. Isto cabe a você.
A você também cabe o não, quando sentir que é o momento. Por mais difícil que seja é este não que vai lhe libertar.
Esta liberdade pode ser assustadora quando o que você tem é seguro (por algum
motivo que às vezes nem você sabe). Mas o melhor da liberdade é que ela é sua,
só sua. E quando você diz não para quem quer tomá-la de você, você segura as
rédeas, as suas rédeas, que você nem devia ter, porque você não deveria ser
controlada por ninguém. Mas tudo bem, nunca é tarde para assumir o controle da
sua vida.
Depois que você atravessar esse
túnel escuro e assustador, encontrará e se apossará da luz e não precisará mais
da escuridão. E apesar de levar no corpo algumas cicatrizes, vai ter
consciência do seu poder e nunca mais permitirá que isto se repita. Caso
aconteça de novo, lembre-se: a vergonha não é sua e agora você já conhece bem o
caminho que te livra de quem te faz mal.
E se você já passou por isso, conseguiu
reconquistar sua força, ajude quem está nessa agora. Seja respondendo um
comentário desagradável, seja constrangendo quem está abusando, seja
aconselhando, seja compartilhando a sua história, seja ligando para a polícia.
Você mais do que ninguém sabe que somos nós por nós. E existir já é lutar. Não
se cale, não se anule, não se submeta. Você é sua, só sua, de mais ninguém.
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