Sobre a negação


Ela nega, adora negar a lgbtfobia. Diz que não existe. Faz coro pra convencer que é coisa da cabeça de quem pensa.
Mas na hora de projetar a raiva, aquela raiva que ela tem lá dentro e não sabe o porquê, é contra a sapatão que ela grita. É para a sapatão que ela manda a indireta, é na sapatão que ela desconta a frustração, é à sapatão que ela responde de forma atravessada. É da sapatão que ela não consegue gostar e ela jura que tenta. Tenta muito. 
E ela vai achar mil desculpas pra justificar cada ação. Vai botar a culpa no gênio da sapatão. Precisa ser tão bruta? Questiona. Pode ser mais feminina, delicada. Menina. 
A sapatão dança no canto, no cisco do olho, incomoda. 
Mas não, essa coisa de preconceito, essa coisa de achar que dizem que a lésbica vai pro inferno por ser sapatão é coisa da cabeça de quem ouve.
Ela já falou que quem mais tem preconceito contra os negros, são os próprios negros, mas não se diz racista. Ela repete a máxima com os viados ( porque pra ela gay, travesti, trans, bi... tudo é a mesma coisa). Mas os viados não incomodam ela como a sapatão.
Se quer ser respeitada tem que se dar o respeito, diz. Precisa ser assim, tão masculinizada? Por que tão ruim?

A questão é que ela fala e não pensa. Quando diz que a sapatão tem que se dar ao respeito pra ser respeitada, expressa muito mais do que diz. E o que tá na entrelinha é cruel demais pra ser falado olhando nos olhos, tem que ter muita coragem. E ela combina o preconceito com covardia. 
Então  quando ela diz que sapatão tem que se dar ao respeito pra ser respeitada, ela também diz que  não a respeita porque a sapatão não tem atitudes respeitáveis.
No entanto, o que é considerado não respeitável é a forma de expressão, é o jeito de ser, a personalidade. Coisas difíceis de mudar em alguém e que normalmente são respeitadas pelos outros, por mais que não agrade.
Mas ter todo esse raciocínio é difícil demais pra ela. E ela precisa ter algum controle do que ela não entende, do que ela não quer ver, do que ela rejeita. Ela precisa ter controle do corpo da sapatão (quanto desejo, hein?). Mesmo que seja dizendo com agir, mesmo que seja dando uma resposta atravessada, mesmo que seja apontando e expondo.

Mas a sapatão que, até então, tentava não fazer conflito, cansa e resolve responder:
- Preciso. Eu preciso ser assim, exatamente do jeito que sou. Se não precisasse, não seria. Mas sou.
O incômodo é seu. O preconceito é seu. Mas quem paga o preço no fim do dia sou eu.
Por isso eu cansei de ouvir seu discurso, cansei de tentar te fazer entender, cansei de tolerar e relevar sua agressão. Não é meu trabalho, nem a minha função. 
Tá incomodada com a minha existência? Acha que o fato de eu existir te desrespeita? Deixa eu te contar um segredo: Como eu vivo, me expresso, existo, não tem nada a ver com você. Tem a ver comigo. 
Ta desconfortável? Busque seu conforto. Mas não ouse tocar em mim, não mais, eu não sou seu fetiche. Resolva suas questões e me deixe dançar em paz. 


Você é homofóbica sim. Você é racista sim.
E a sua homofobia mata. E o seu racismo mata.
Todo dia. Todo dia. 



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