Sobre Invasão

Ele pulou na minha varanda, entrou pela janela do meu quarto. Eu estava lá nua, vulnerável. A culpa era minha. Ele gritou, me ligou, tocou a campainha, bateu na porta. E eu estava lá, nua, dormindo. A culpa foi minha.

Ele me olhou, me ofereceu uma bebida, falou pra eu ter calma, falou que eu era linda, falou pra eu sorrir, me abraçou, tentou me beijar, tentou me agarrar. A culpa era minha. Eu não bebo, mas olhei de volta, eu disse não, agradeci e sorri. Eu agradeci. Eu dizia não, ele entendia sim. Eu não soube me fazer ouvir. Eu sorri. A culpa foi minha. 

Eu estava na fila ouvindo música, esperando a minha vez. Ele pegou na minha cintura, quis dançar comigo. Eu nem o conhecia. A culpa era minha. Eu dancei. E dançar é se oferecer. Ele estava na fila e só respondeu aos meus sinais. A culpa foi minha.

Eu estava andando na rua, tranquila. Ele passou na moto e gritou: “Que peitinhos mais gostosos”. Eu me irritei. Gritei: “Nojento!”. Ele se assustou, saiu ofendido. A culpa era minha. Eu não deveria ter saído de casa com um vestido tomara-que-caia se não quisesse ouvir elogios de cavalheiros desconhecidos. Eu não tinha o direito de ter me irritado e agredido àquele rapaz. Eu não deveria ter saído de casa com aquela roupa. A culpa foi minha.

Eu não deveria ter saído de casa. Eu não deveria estar em casa. Eu não deveria me vulnerabilizar tanto dormindo pelada no meu quarto. Eu deveria me fazer ser entendida melhor. Eu não deveria ouvir música livremente. Eu não deveria dançar. Eu não deveria sorrir. Eu deveria me vestir melhor. A culpa é minha. 

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