Sobre-viver
Viver é um risco. Você pode se
machucar feio, talvez nunca mais se recuperar, ter sequelas graves, ou simples
cicatrizes. O fato é que uma vez que resolvemos enfrentar a nossa vida pelas
nossas rédeas, estamos desprotegidos. Quanto mais bonita a flor, maior o
espinho, quanto mais gostoso o liquido, mais venenoso ele será.
Então pra que viver? Melhor ficar seguro, vendo a vida dos
outros. Talvez julgando, talvez apenas aprendendo com os erros, talvez só
observando. É uma escolha. É seguro.
Uma vez que você se joga na vida, nunca mais será o mesmo.
Acabou proteção dos pais, dos irmãos, dos amigos. É só você e mundo inteiro. Dá
muito medo, mas é emocionante.
É estranho também, você se mete em situações que nunca
imaginou, frequenta lugares completamente desconhecidos, se expõe de
uma forma inimaginável, parece loucura.
Por alguma razão inexplicável, quem sai da torre da Rapunzel
não volta mais. Se não por não ver mais graça naquela segurança, por gostar do
frio que se sente a cada vez que não se sabe o que fazer. E você se pergunta: "Como eu consegui passar tanto tempo
anestesiada? Por que eu não lutei por isso antes?"
E você passa a aproveitar cada raio de sol com muito mais
entusiasmo, perde o medo de tomar banho de chuva. Sente o valor da vida como
nunca. Já está feito, você já está enfeitiçado, não tem mais volta.
O problema é que, em algum momento, algo não vai correr tão
bem. Aquela sensação de liberdade, agora parece mais com desamparo. Você
escolheu tomar as decisões da sua vida só, assim também estará para enfrentar
as consequências. E elas vêm na mesma medida, com mais força, tentam te
derrubar, te destroem em mil partes, talvez você nunca se recupere e passe o
resto da vida tentando montar o quebra-cabeças de um milhão de peças que você
se tornou. Talvez você tente colar os pedaços, seguir em frente e ir dando um
jeitinho nos erros pra disfarçar os danos. Há uma hipótese pouco provável, mas
há quem consiga: talvez você consiga se montar. Mas a maior possibilidade é que, mesmo que você consiga, terá uma peça sobrando, ou faltando. A verdade
é que: uma vez que nos jogamos nesse mar, nunca mais seremos os mesmos. Ainda
que o nosso quebra-cabeça se monte, teremos cicatrizes.
Viver é um risco, machuca, dói. Nos faz sentir estúpidos, nos
faz quebrar valores da pior forma, nos faz compreender o outro de qualquer
maneira, a qualquer tempo.
Não conheço ninguém que se jogou da torre e esteja 100%. Ainda
assim, não conheço ninguém que tenha escolhido voltar. Talvez porque essa faca
de dois gumes chamada liberdade, também nos dê a escolha de recomeçar, rever
nossos conceitos, aceitar os riscos e, principalmente, de evoluir.
E não há evolução sem dor. Esse é o primeiro aprendizado que temos.
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